26 de ago. de 2011

Esses Amores | Crítica

Esses Amores

Godard já culpou Spielberg por transformar a Segunda Guerra em espetáculo, mas o cinema francês não está imune aos encantos do imaginário do conflito. Reverência à imagem americanizada é um dos princípios do filme mais recente do diretor Claude Lelouch (Crimes de AutorA Coragem de Amar), que em português ganhou uma tradução literal do nome em francês, Esses Amores (Ces Amours-là).
O título em inglês, What War May Bring, é mais sugestivo. O que a guerra pode trazer? Para Ilva (Audrey Dana), lanterninha do cinema do tio em Paris, depois de alegrias e sofrimento em equilibrada medida, a guerra trouxe uma acusação de assassinato. No imediato pós-guerra, a francesa teria matado o seu marido, um soldado dos EUA, herdeiro de uma milionária empresa de máquinas de costura, que conheceu Ilva durante a libertação da capital.
Qual o motivo do crime? Até chegar nesse momento da revelação, Esses Amores faz uma longa digressão desde a criação do cinema, passando pelo primeiros filmes da propaganda nazista, até o balé dos para-quedistas do Dia D na Normandia. Há momentos de homenagem didática (o instante de um crime vem acompanhado de um pôster gigante de Hitchcock), de resgate visual (o campo de concentração de Technicolor) e de metalinguagem declarada (o soldado protagonista é o fotógrafo do pelotão).
O relato histórico coincide com a homenagem ao cinema, em geral, e ao cinema hollywoodiano, em particular - parte da memória afetiva dos cinéfilos da geração de Lelouch, que passaram a ter acesso aos filmes dos EUA na França justamente por conta da abertura do pós-guerra. Esses Amores começa e termina em nota autobiográfica, com o diretor falando de sua própria produção, mas o saldo não é só autoreferente nem só nostálgico; Lelouch vai além do saudosismo e faz um filme interessante sobre a sedução do espetáculo.
Isso fica mais agudo nas cenas que lidam diretamente com a dura memória do Holocausto - como a senhora judia que faz um monólogo desvairado no vagão do trem e é aplaudida pelas demais, ou o oficial nazista que conquista Ilva ao tocar a "Marselhesa" em uma escaleta - mas está presente também nos flashbacks, como o do índio que, espetacularmente, vence a corrida no Velho Oeste. São personagens entregues não apenas à paixão, os de Esses Amores, mas ao fascínio da performance.
É como se a ocupação nazista - que se apropria do cinema desde o advento do sonoro, como Lelouch sugere em um salto temporal - tivesse criado uma oferta de pessoas "doentes por arte", dispostas a abraçar a ilusão não como escapismo, mas como um refúgio de fato. Uma geração patologicamente cinéfila.
omelete

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